sábado, 3 de novembro de 2012

O diabo no boneco

      Certa vez, de gole por gole de cachaça no bar do Seu Pedro, ouvi uma conversa que até hoje intriga, um cabra que no corpo só tinha trapos, sujo e bêbado, ele falava para um senhor, do dia que vendeu a alma pro diabo, isso mesmo, o Belzebu, lhes falo tal história agora, exatamente como me lembro.
"Eu tinha 16 anos, foi quando fui junto de minha mãe até a casa de um sinhô de terras, dono de grande riqueza, diferente de nós, minha mãe era faxineira, e eu tava lá só de companhia mesmo, eu era novo, menino de tudo, quase sem malícia, então resolvi andar pela casa do homem, enquanto minha querida mãe passava um pano molhado na mobília cara. Distraído por de mais, entrei no escritório, onda havia vários livros, mas num fora isso que me chamara a atenção, e sim um boneco que descansava em cima da mesa, era um bicho magrelo, de chifre e com uma foice na mão esquerda.
     De supetão entrou no quarto José, o dono da fazendo, o coração me saltou pela boca, suei frio, o homem já entrou gritando:
     - Que faz no meu escritório? Moleque atrevido... - Me agarrou as orelhas e me arrastou pra fora da sala, antes de sair, meti a mão no boneco e levei comigo... Mais tarde, de noite, quando encostei a cabeça no travesseiro, logo de cara comecei a sonhar, no sonho tinha eu e mais um homem, de terno preto, coisa fina, sentado em uma cadeira de balanço, e em nossa volta só tinha fumaça, o homem danou-se a falar, me prometeu muitas terras, mulheres, dinheiro, tudo o que eu quisesse, no tempo que eu quisesse, em troca disso, quando eu morresse minha alma lhe pertenceria, para que o feitiço funcionasse, eu jamais deveria ficar longe do boneco, ou então perdê-lo.
      Quem não aceitaria tal proposta? Eu malemá sabia o valor de uma alma, é claro que aceitei. Os anos se passaram, minha fortuna crescia, cada dia eu tinha uma mulher, cada dia uma mais bela, sempre mais formosa, minhas colheitas me rendiam fortunas, tinha casas das mais belas arquiteturas, até que um dia, acordei de manhã e o boneco sumira, logo de começo me amargurei de medo e não demorou muito para que um senhor me batesse a porta. Dissera-me que era do banco, e o banco estava falido, todo meu dinheiro guardado sumira, pensei que não fosse problema, afinal, eu tinha casas e mais casas, joias e mais joias, que impressionantemente sumiram, de um dia para o outro caí na desgraça, minha fome amentava, eu não tinha mais nada."
       - Agora amigo, espero somente a morte, somente o inferno! - Assim disse o homem até que caiu e sangue lhe esguichava pela boca, tinha chegado a sua hora, hora de prestar contas com o verdadeiro dono do bonequinho de chifres.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Jesuíno o Caçador

O causo que hoje vos conto, aconteceu com um finado amigo meu, companheiro de buteco, que certo dia inventou de ir caçar onça, pegou tua carabina pendurou nas costas e levou seu cachorro, inté passou em casa pra que eu fosse junto, mas tinha muito serviço, muita mandioca pra rancar.
Era final de tarde, e lá se ia compadre Jesuíno subindo a serra rumo à mata, nisso se passava umas quatro da tarde, a caminhada era por de mais comprida, e ainda tinha um ribeirão que só se cruzava no peito, Jesuíno era manjado naquelas bandas, conhecia árvore por árvore, escolheu a melhor pra ficar na espera da onça que rondava por lá, tempo passava, cigarra cantava e nada da onça, até que o homem houve de escutar barulho no mato e decidiu mirar, o cachorro ensinado tava no galho do lado e pulou na moita, e só se ouviu o grito do cachorro.
Jesuíno era cabra valente, medo nem de morte tinha, e foi atrás do bicho saiu cortando mata e seguindo a trilha de planta quebrada,  e chegou na bera dum açude onde as taboa tavam tombadas, pensou ser cobra e decidiu voltar pra casa e dormir, já era tarde e mata de noite não é lugar bom de ficar,  rumou-se embora e voltou no outro dia quando ainda tinha sol, Jesuíno jurava até o dia de sua morte que o rastro sumiu junto com o açude, mas um dia voltava pra buscar seu cachorro, talvez tenha voltado, depois de morrer uma semana após.

sábado, 20 de outubro de 2012

Cabocla Juditi

Assim como o vento corre por entre a mata e a serra, essa história correu, atravessou estados, até que chegou em meus ouvidos e hoje posso lhes contar, essa é a história de uma cabocla que de tão bonita atraiu a morte pra dois cabras. Seu nome era Juditi, seu cabelo era preto, sua pele mulata e um corpo esbelto, toda tarde quando o sol ia saindo lá no horizonte, essa caboclinha banhava nua no riacho que descia serra à baixo, mas o que ninguém sabia era que, um homem andava pelas redondezas no mesmo horário, e sempre espreitava o banho da morena por entre as gaias das arvores, sem saber que Juditi tinha noivo, que de vez em quando aparecia por lá, pra fazer uma "surpresinha" daquelas.
Entre espreitada e surpresinha heis que um dia os dois se cruzaram, num canto Quirino o noivo de Juditi e do outro Alberto, o balconista do bar, e no meio Juditi completamente nua, entre os socos e rasteiras que foram dadas pelos dois, Alberto caiu aos pés de Quirino que disse com voz grossa e firme:
- Se tu for cabra macho, mas macho "meeerrmo" aparece na frente da Capela, cinco para meio dia, escolhe tua arma e quem ganhar fica com a moça!
Não deu outra, cinco para meio dia no sol de rancar o couro, Quirino com a espingarda calibre trinta e dois de seu querido pai, Alberto com seu estimado trinta e oito preso no coldre.
Vira de costa, quando o sino bater a gente atira, o que ficar de pé, é o vencedor! - Disse Alberto destemido!
Os dois de pé um de costa pro outro, o suô escorria na testa dos homens, a poeira voava e o povo escondido, espiava por entre as brechas da tábua da parede do bar, no estalar do sino que fez o chão tremer, Alberto acertou os miolo de Quirino, antes que ele pensasse em pensar.
Você deve tá é pensando que Alberto comemorou sua vitória, que nada, nem tempo não dera, o pai de Juditi que espiava de longe, atirou pelas costas, e o homem caiu ajoelhado com sangue amargo na boca!