Certa vez, de gole por gole de cachaça no bar do Seu Pedro, ouvi uma conversa que até hoje intriga, um cabra que no corpo só tinha trapos, sujo e bêbado, ele falava para um senhor, do dia que vendeu a alma pro diabo, isso mesmo, o Belzebu, lhes falo tal história agora, exatamente como me lembro.
"Eu tinha 16 anos, foi quando fui junto de minha mãe até a casa de um sinhô de terras, dono de grande riqueza, diferente de nós, minha mãe era faxineira, e eu tava lá só de companhia mesmo, eu era novo, menino de tudo, quase sem malícia, então resolvi andar pela casa do homem, enquanto minha querida mãe passava um pano molhado na mobília cara. Distraído por de mais, entrei no escritório, onda havia vários livros, mas num fora isso que me chamara a atenção, e sim um boneco que descansava em cima da mesa, era um bicho magrelo, de chifre e com uma foice na mão esquerda.
De supetão entrou no quarto José, o dono da fazendo, o coração me saltou pela boca, suei frio, o homem já entrou gritando:
- Que faz no meu escritório? Moleque atrevido... - Me agarrou as orelhas e me arrastou pra fora da sala, antes de sair, meti a mão no boneco e levei comigo... Mais tarde, de noite, quando encostei a cabeça no travesseiro, logo de cara comecei a sonhar, no sonho tinha eu e mais um homem, de terno preto, coisa fina, sentado em uma cadeira de balanço, e em nossa volta só tinha fumaça, o homem danou-se a falar, me prometeu muitas terras, mulheres, dinheiro, tudo o que eu quisesse, no tempo que eu quisesse, em troca disso, quando eu morresse minha alma lhe pertenceria, para que o feitiço funcionasse, eu jamais deveria ficar longe do boneco, ou então perdê-lo.
Quem não aceitaria tal proposta? Eu malemá sabia o valor de uma alma, é claro que aceitei. Os anos se passaram, minha fortuna crescia, cada dia eu tinha uma mulher, cada dia uma mais bela, sempre mais formosa, minhas colheitas me rendiam fortunas, tinha casas das mais belas arquiteturas, até que um dia, acordei de manhã e o boneco sumira, logo de começo me amargurei de medo e não demorou muito para que um senhor me batesse a porta. Dissera-me que era do banco, e o banco estava falido, todo meu dinheiro guardado sumira, pensei que não fosse problema, afinal, eu tinha casas e mais casas, joias e mais joias, que impressionantemente sumiram, de um dia para o outro caí na desgraça, minha fome amentava, eu não tinha mais nada."
- Agora amigo, espero somente a morte, somente o inferno! - Assim disse o homem até que caiu e sangue lhe esguichava pela boca, tinha chegado a sua hora, hora de prestar contas com o verdadeiro dono do bonequinho de chifres.